terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Quinta de Inverno.

Me veio numa tarde de quinta. E apesar do sol, o vento cantava gelado nas orelhas. Como todo vento de quinta feira de inverno daquele ano. Não sei se foi o olho no olho, ou o simples festejar de borboletas que fez daquele momento, aquele momento.

Eu contava os dias. E desses dias senti as horas. Dessas horas os minutos. O tempo – naqueles dias – não ia muito com a minha cara.

Mas bem, me veio numa tarde de quinta! As 13h até onde me lembro. Eu só queria ganhar um oi. Ela, quem sabe um sorriso. No fim, ganhei o mundo.

Depois daquele dia acho que nunca pude ser o mesmo. Não que um sorriso estatelado na cara mudasse drasticamente os dias de uma pessoa, quem ela era e o que pretendia. Aos poucos me sentia mais seguro. Cada momento era venturoso. Cada dia me completava. Nos entendíamos, éramos um. E sendo apenas um, me nascia um sentimento.

Ah, era mais do que simples arder do peito – lhe garanto. O frio incontrolável na barriga e a mania de ficar inquieto mesmo quando olhando fixamente num ponto – como todo mundo faz – em transe, acordando para o mundo com um piscar de olhos. Nada resumia aquilo que me veio. Aquela voz que queria gritar ao mundo que era minha. Que eu era dela. Que éramos de nós dois e que o mundo então, nosso.

Eu a via sempre. Minutos contados, rápidos, que me valiam o dia. Mas eu lhe via. Os 30 minutos mais vivos de cada dia meu. Ou quem sabe, mais vividos. Mais aproveitados. Mais mais. Nossos minutos.

Mas, caro leitor, o tempo não vai com a minha cara. Ou talvez, não goste de nenhum gauche dessa vida. ‘Vai Carlos ! Vai ser gauche na vida !’. Eu sou gauche. Deus já havia me abandonado há tempos. Meu leitor, esse mundo não é meu...

 

De minutos fizeram-se horas. E de horas se fez semanas. E de semanas se fez um mês. E de um mês se fez o inferno.

 

Ah. Quem me dera tê-la aqui. Agora. Comigo. Como sempre foi! Como há de ser! Rezo a cada anjo, a cada arcanjo ou demônio. Para a entidade que for, desde que me escute!

Rezo para que volte! Volte os dias, os momentos, o que sempre foi e o que era antes! Rezo para que ela seja minha para sempre. Que esteja ao meu lado, a cada passo meu nessa estrada. Que sejamos de novo, um do outro. Apenas um.

Ah - caro leitor - não sabes o que é sofrer. Amar, de todo um coração, e não poder estar com a tal amada. Não por incompatibilidade, tensões, brigas e afins. Não poder estar pela saudade, pela distância... e pelo tempo – este que tanto me odeia.

Pois se for para sentir saudades, que eu a sinta a uns sete palmos do chão!

 

Me veio numa tarde de quinta. Era Setembro. Fim de inverno. Não que eu me preocupe com as estações, mas foi só depois aquele dia, que eu descobri o desabrochar da primavera.




['Eu só aceito a condição de ter você só pra mim.

Eu sei, não é assim, mas deixa' 

-Los Hermanos ]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Amor em 7 Dias.

(Take my love in real small doses.)
I will stand by all this drinking if it helps me
(...)

To let it all away
Spend it all today
Spend it all today
It took time then I found you.


5º Dia

A calma cede o lugar à ansiedade, aos tremores, aos medos. Cede lugar ao suór gelado, à impaciência com o tempo que insiste em demorar. Cede o lugar à unhas roídas e uma certa pressa na fala; qualquer médico que me visse diria que eu estava estressado, ou que teria ao menos 30 anos a mais, ou que estivesse com a pressão alta, ou qualquer coisa assim; era amor.

Trazia comigo uma carta, do lado esquerdo do blazer - para manter aquecida, claro. Era noite, mas eu me sentia sob o sol do meio dia, mas, você não chegava. Me sentei com um irmão, um semelhante que me acompanhava naquela noite; guardamos nossas dores no bolso, e brindamos.
Nos dirigimos ao local do show e eu já pensava em desistir de te ver, desistir de entregar a carta, fui então em direção à entrada, mas você chegou e estava de branco, nos abraçamos e lhe entreguei sua carta - que apesar de eu ter escrito, era sua desde o início - você sorriu e se virou para a esquerda, fazendo um gesto para que eu a seguisse, mas eu não podia, tivemos que ir cara um para um lado, sem entender. Não te vi mais naquela noite, e o sol do meio dia se transformou em nevasca.
Apoiei-me em meu irmão e seguimos, eis que uma voz me grita. Virei rapidamente, pensando ser você, mas era Ana, era tangerina, era amiga. Ana tinha os olhos marejados e avermelhados. Não precisamos dar explicações, nosso abraço contou todos os segredos. Tomei-os pela mão e fomos. A noite estava salva.
Você me ligou ao fim do show, se desculpou e novamente agradeceu.
Não te vi mais que 5 minutos naquela noite, e você esteve lá o tempo todo.

Deixei que os meus olhos se perdessem pelo céu enquanto eu me perguntava:
Quando... Quando?

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Amor em 7 Dias.

"(...)uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu-azul - daquela não-dor, afinal."
[Caio F. - Estranhos Estrangeiros]

4º Dia

Apesar de singelo e sem grandes planos, foi uma espera interminável. Me distraí com uma ou outra companhia a mais. Depois de muito, nos avistamos.
Entramos na escuridão do cinema, e acabamos separados, o ambiente estava frio, muito frio, mas não podia me esquentar, havia uma cadeira entre nós, uma mísera cadeira, e portanto e tão pouco; não podíamos nos tocar. Você não notou, imagino.
Aguentei um pouco, mas o frio venceu, fez sua parte, aproximar os casais:
- Estiquei minha mão lentamente pra te procurar e me perdi no meio daquele breu, que só terminava na tela, um segundo ou menos, mas fiquei perdido - cego tateando - até que então pousei minha mão lentamente sobre seu cabelo e acarinha-los por puro instinto, como quem acorda e sabe que deve abrir os olhos, ou quem almoça e sabe que deve dormir; não sei quanto tempo durou, só lembro de me flagrar com vergonha e num gesto súbito e rápido puxei minha mão para perto do nariz, era seu o cheiro dela. Não creio que você tenha notado meu susto, apenas pediu para que eu continuasse, continuei, continuei, e desejei que aquele filme simplesmente não tivesse fim. Mas teve.
Saímos do cinema, e eu soube que dali por diante minhas mãos não seriam completas longe de você.
Nos despedimos; você me ligou pouco tempo depois e agradeceu minha companhia e perguntando se eu estava bem: Eu estava.
foi rápido, divertido


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Amor em 7 Dias.


(...)quase me perdi,
mas me encontrei, bem ali, na trilha,
compreendendo que nada pode se perder em um caminho bem usado.
[Kerouac]

3º Dia

Acordei cedo para sentir o dia, abri a janela e avistei o mesmo sol de todos os dias, o mesmo céu, e respirei o mesmo ar; tudo numa normalidade que chegava a ser estranha, alguma coisa estava mudada, algo entre o céu e terra; algo que não ousei descrever.
O trem, sempre o trem, me levou ao seu encontro no exato momento em que o céu se descuida de si mesmo e derrama suas cores com mais intensidade, no exato momento em que o sol se prepara para o último mergulho, não tínhamos pressa, éramos apenas nós, o sol se pondo e a noite, como se sabe, é lenta e calma. Enquanto falávamos, e falávamos, ambos, sol e noite, se cortejavam e trocavam de posição.
Eu bebia as palavras que você derramava de sua boca, e você bebia as que eu derramava; nossas risadas eram como brindes.
Você estava de cinza, e sorria como nunca, criança empolgada, pintava as calçadas enquanto passava, despejando litros e litros de cores por toda a rua, e acendendo os postes; eu seguia atrás.
Chegamos ao destino, nosso horizonte outrora pintado em óleo sobre tela, agora eram cores vivas em carne e osso e palco.
As luzes apagaram, o som acendeu. E nós, também.
Uma miscelânea de cores e sons tomou conta do ambiente, não estávamos mais sozinhos; mas era como se estivéssemos, todos ali estavam distantes, uma distância boa, estavam todos consigo mesmos; exceto eu.
Você estava na minha frente, de costas, tão rentes que recuar era ainda se tocar*, estava longe, alheia. Tentei ficar também, já passava das 23:00, e eu não consegui. Passou um tempo, 20 minutos, quem sabe, e você se virou, plácida, e me abraçou num gesto tão simples quanto espontâneo; às 23:20, suponho, você me soltou e disse que estava se sentindo muito bem, e se virou; às 23:21 você já era a moça mais amada daquela cidade.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Amor em 7 Dias.

Ao som de Primavera nos Dentes;
Secos e Molhados.

Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás.
[Caetano]

2º Dia

Naqueles tempos eu me confundia em outros olhos, e que hoje não mais me confundem. Naqueles tempos eu confesso que andava um tanto perdido. Naquele dia eu não te vi direito, nosso contato foi cortado por um reencontro de sua parte, e de um desencontro de nossa parte. Mas estávamos juntos o dia todo.
Até um pouco sem consciência do que estava ocorrendo nós traçamos o que seria nosso 3º dia, sob um céu com nuvens esparsas e um sol forte, foram tumultos e uma certa falta de noção para onde ir, mas ao fim tudo deu certo; não tínhamos pressa. Senti sua falta naquela tarde.
Sentia um leve desespero, era apenas a 2ª vez que eu te via e já estávamos desencontrados, não importava, não importava que estivéssemos sendo vigiados, pintamos um 3º dia no horizonte, pintamos nas cores de música, de show.
O vagão estava frio enquanto regressávamos, você sentou-se no chão e começou a massagear sua cabeça, acabou pegando no sono em meio a todas aquelas pessoas cansadas e tristes. Te olhei do alto e sorri.
Anoiteceu, e pela primeira vez no dia pude te ver e ouvir com calma, nos apoiamos no parapeito da estação e ficamos ali, um tempo, completamente alheios. Porém observados, por outros, uns bons, outros ruins. Meu nariz sangrou, eu não te amava ainda; ou não sabia.
Era tarde, a noite cheirava chumbo. Minha cabeça pesava chumbo.Nos despedimos.

E esperamos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O Amor em 7 Dias.

Ao som de 'Detalhes'
do Roberto.


Do bom dia que dou ao padeiro,

ao beijo onde nos abrigamos

o amor se faz por detalhes.

1º Dia


12:43 - marcava o relógio digital do celular, apenas 3 minutos de atraso, sem problemas. Havia certa habitando o ar, uma calma que me permitia fechar os olhos e esquecer o calor infernal que fazia dentro daquele vagão cinza entupido de pessoas; uma tranquilidade que deixava os ouvidos completamente mudos, apesar de todo o barulho no ambiente, era a calma que eleva nossos sentidos - o nirvana das grandes metrópoles - sentia cada milímetro dos trilhos, enquanto o trem avançava tal qual uma serpente feita de ferro e balançava num compasso firme e ao mesmo tempo suave, como se fosse um balé; os trilhos eram o palco e os vagões os bailarinos que dançavam para uma platéia insensível, preocupada apenas com horários e prazos.
A dança se prolongou por alguns minutos até que eu sentisse que estava chegando ao meu destino. Senti a velocidade diminuir aos poucos até que enfim parou. Abri os olhos no tempo exato de eternizar uma cena, tão singela quanto inefável.
Focalizei o exato momento em que suas mãos, que eu viria a conhecer tão bem e ainda não sabia disso, se encontravam com seus cabelos, e se misturavam como se estivessem numa brincadeira de pega-pega até que o cabelo se rendeu, e ficou preso conforme seu desejo; eternizei tal cena em preto e branco para que eu pudesse colorir ao meu modo, sempre que desejasse.
Ainda calmo, não houve timidez ou medo. O céu estava limpo, sem nuvem alguma; você esboçou um sorriso um tanto desajeitado - que acabou resultando em uma careta - e disparou um 'olá' em minha direção:
Nunca havia sentido tanta saudade quanto naquele momento, e eu nem ao menos tinha te visto antes nos últimos 16 anos.
O dia seguiu rápido e ninguém além de mim captou tais detalhes naquela estação de trem lotada. Ainda era sol quando nos despedimos, e o céu me parecia feito de aquarela ao fim do dia.

Esperei pelo próximo;