quarta-feira, 8 de abril de 2009

Haverá?



Nem poesias nem baladas,
apenas água e calma.
Abre a alma e mostra os seios,
entre os seios me abrigue sem receio.


Estou sentado nesse banco, e pego um pedaço de papel surrado do bolso. Leio com calma o seu conteúdo, e guardo com uma delicadeza desnecessária - tendo em vista o estado surrado em que ele se encontra - cruzo meus braços e me protejo do frio que faz esse outono, nesse exato momento sinto falta de tecidos finos e coisas leves; sedas e rendas descompromissadas, que se ajeitam no corpo com tal perfeição que parecem peles extra-corporais.
O frio aperta, apesar do sol, creio que seja culpa do vento, meu moleton não chega a ser suficiente para conter o final de tarde de outono; existe céu mais belo que o céu de outono? Poucas nuvens, um sol forte porém ineficaz, e um azul completamente diferente, azul que prefiro não nomear.
As folhas secas do bambuzal caem conforme o vento bate, e o vento está batendo muito, muitas folhas pelo chão, então me arrisco a ficar descalço apenas pisando na maciez das folhas, apesar de secas, e começo a pensar 'Deus, ando tão vivo'.
Olho o jardim com certa curiosidade, ele parece diferente à cada época do ano, embora pareça óbvio assim falando. Analizei-o com calma, sem a pressa de encontrar algo específico; sabendo, entretanto, que encontraria. Outro sopro forte do vento, e mais algumas folhas caem, não tenho vontade de tirá-las, deixo-as cairem onde quiserem.
Nesse momento o céu começa a tomar outros tons, embora o azul ainda predomine, já vejo nuances fúscia ou arroxeadas, tudo com muita calma.
Outra rajada de vento... Mas essa veio diferente, senti algo além de folhas e vento no rosto, me perdi em dois aromas suaves e distintos; o primeiro era um cheiro quente e forte, impregnava as narinas, se aproveitando do ar seco e do vento, o segundo cheiro... Era teu.
Puxei o ar com força e sem dificuldade, o ar estava umedecido pelo aroma de café e de moça, foi como trazer, pelas narinas, um número quase sem fim de lembranças. Eu não sabia se eu estava lhe esperando, ou se você já havia chegado. Confundi saudade com desejo.
Inspirei novamente o ar cada vez mais úmido, e então não resisto, me rendo; penso em ti com força, e pensei no que eu diria caso estivesses aqui, algo como:

'- Te esperaria sentado nesse mesmo banco, nesse mesmo outono, ou numa próxima primavera, te esperaria com o semblante alegre de quem crê nas pessoas; pode ser que eu envelheça nessa espera, sentado olhando as folhas e o céu azul, mas eu te esperaria, mesmo que eu ficasse enrugado e com os braços finos e fracos à espera dos seus... Eu não deixaria de esperar, nunca, pois não sou nada além de confiar em ti, e saber que você viria se sentar comigo, pediria desculpas pelo atraso e partilharíamos um bom futuro; te esperaria nesse banco puído de madeira no meio desse jardim que seria só nosso, só te peço que venha, pois eu esperaria.'

Parei de sussurar, e o vento me bateu no rosto novamente. Aromas próximos. Um leve arrepio na nuca e então fecho os olhos por alguns segundos de deleite, e sinto como se me cobrissem com algum cobertor ou manta, abro os olhos e vejo Você, que me cobre, me beija a testa com imenso carinho e me entrega o café e se senta a meu lado. Me sorri e diz algo como 'as crianças devem estar chegando', bebo um gole do café, enquanto seguro suas mãos com força, afagando seus cabelos; no momento exato em que percebo que já não preciso mais lhe esperar...